Durante cerca de 20 anos, Francisco Isolino de Siqueira tem suas crônicas publicadas semanalmente no jornal Correio Popular, de Campinas. Escrevendo sobre o quotidiano da cidade e das pessoas que povoam sua vida, o advogado, jornalista e professor analisa e acompanha as condições econômicas, político-sociais e afetivas que definem os relacionamentos de seu tempo. Sempre através de verdadeiro diálogo com seu "leitor e amigo".

Seja destacando as obras desenvolvidas pelas entidades assistenciais da cidade e chamando o leitor à participação eficiente, seja incentivando os jovens à leitura e à inserção na vida política de sua comunidade ou ainda, relatando com humor as histórias de seu primo, "aquele que sofre do fígado", Isolino de Siqueira desenvolve estilo próprio e marcante de registrar, em forma de crônicas, o mundo à sua volta e também aquele dentro de si.

As crônicas publicadas neste blog são amostras de seu estilo literário cativante, original e pessoal, que conquista o leitor, mantendo vivas as suas mensagens, poesia, beleza e valores atemporais.

Boa leitura. Ou melhor, bom diálogo com este corintiano "irmão de quotidiano".

"Se eu pudesse recomeçar eu procuraria fazer meus sonhos ainda mais grandiosos porque essa vida é infinitamente mais bela e esplêndida do que eu pensava, mesmo em sonho". - Francisco Isolino de Siqueira

(trecho extraído da crônica "Colóquio")

sábado, 22 de outubro de 2011

Namorar, verbo transitivo

Miguel põe a xícara de café ao lado da máquina de escrever ainda silenciosa. As volutas da fumaça passam, lentamente, diante de meus olhos absortos. Estou pensando com os dedos parados sobre as teclas, os olhos perdidos através da janela, o pensamento preso ao calendário, ali na parede. Levanto-me para procurar onde deixo o dicionário do Aurélio, e, fixar o significado do verbo namorar. E o verbete ou explicação que lá está diz que é inspirar amor. Verbo transitivo. As coisas e as paisagens me inspiram amor, esta estranha e esplêndida sensação de estar de bem consigo mesmo num vasto mundo de belezas que se ofertam. E sei que para estar enamorado é preciso sentir bater o coração dentro da cabeça, crescido na caixa do peito, à flor da pele como urticária. As pessoas, já agora sem os riscos epidêmicos das grandes febres. É mescla de admiração respeitosa, como a do espectador diante da Mona Lisa. Do quadro. E mantido à distancia pelo cordão de isolamento protetor.

Creio que todo mundo namora todo mundo. De uma forma ou de outra gostamos de alguém. De sua sensibilidade, inteligência, cultura, da maneira como nos tratam. Alguma coisa em alguém sempre nos inspira amor, e por isso dela ficamos enamorados. Vale a pena exercitar o verbo desde o bom dia que se deseja logo ao abrir os olhos, de manhã. Não custa nada namorar um pouquinho antes de se deixar pendurar na gravata e nos problemas do quotidiano. E depois abrir a janela devagar, para surpreender o dia antes que se assuste com as buzinas e as chaminés que se atiram poluidoramente nas esquinas e nos bairros industriais. E namorar o céu, a folhagem vermelha dos canteiros, as paineiras floridas da Avenida Orozimbo Maia.

Isso de dizer que se namora a própria mulher é verdade. A gente não perde o hábito mesmo depois de tanto tempo e até fica melhor. Porque é namoro sem sobressaltos. Convencido e seguro como via de duas mãos. A gente sabe que oferece e recebe afeto e pode trocar carinho sem os riscos da concorrência. Decerto porque se tem o amor indexado pela certeza, e isto quer dizer que se conhece, de antemão, o rendimento da mais segura aplicação destas finanças da sensibilidade. Não namore administrativamente. Exercite o direito de ser antiburocrático nos gestos e no comportamento. Pregue de vez em quando um susto em você mesmo e rompa todas as convenções que por acaso ainda existam entre você e sua namorada. Mesmo que seja a sua mulher. Ou por isso mesmo. Por que não agredi-la com enorme buquê de rosas vermelhas? Ou aquele presente que você compra em qualquer dia, a qualquer hora, sem nenhum pretexto senão o enorme pretexto de assinalar a pretensão de que se convença ainda agora de que vale a pena. Pra mim namorar é um recomeçar sem hora.

É como se aquele minuto fosse sempre o primeiro, o beijo sempre o primeiro susto e as mãos frias a esplêndida marca da expectativa. Não tenha medo de ter medo. Namore certo de que faz bem para o batimento cardíaco, oxigena o cérebro, derruba o picumã que se dependura na alma quando bobamente solitária. Não faça greve de namoro. É a única atividade que se você parar daí que não recebe aumento nenhum. Toda greve de namoro é ilegal. Com certeza você é despedido e sem indenização.

E namoro não tem férias. Nem descanso semanal remunerado. É contrato oneroso, mas profundamente gratificante. Na minha carteirinha de namorado o registro assinala trinta e cinco anos de efetivo exercício.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Meus prezados filhos

Bom dia! Escrevo-lhes estas Iinhas simples e espero encontrá-los com saúde, assim como aos seus - e às vezes tenho cá as minhas dúvidas se me incluo no rol de suas predileções, entre o pássaro preto, o “Shopping” barulhento e os encantos fortuitos dos netos insones. Espero que se não preocupe demais com as notícias dos jornais, porque quase sempre os nossos companheiros catadores de notícias, assim como eu, colorimos com algum exagero os horizontes do mundo. Mas, não se assustem com a tal de inflação, revoluções que se multiplicam por todos os cantos, subornos e subversões, ou modificações mais ou menos rotineiras nos altos comandos das forças vivas do País. Tudo isto acontece, queiram vocês ou não, neste fabuloso mundo desde que se destacou de uma tal de galáxia - e isto faz tempo pra chuchu - por isso o que lhes posso garantir é que o importante é, realmente, viver o aqui e agora. Vocês devem ter percebido que estou rodeando demais para entrar no assunto principal desta minha carta, que escrevo quando se comemora o meu dia - o dos pais - isto é, quando se pretende que se redescubra, por alguns momentos, a mais velha e a mais incômoda das providências da natureza.

Mas, vamos lá - todo pai, por definição, deve ser um chato e isto se traduz pela fiscalização constante a que se submete a si mesmo, porque lhe disseram que deve ser o exemplo ou a função social da educação e porque garantem que deve transmitir a experiência, e partilhá-la, dia a dia, desde o berço à sementeira. E, mais porque o dito cujo - o pai - deve prover, por injunções as mais numerosas, não só a dispensa dos alimentos para o corpo, mas principalmente, os valores para o comportamento político-social. E, é aqui que a coisa se torna mais complicada - ou se embanana, como dizem os nossos mais puros lingüistas. Entretanto, o que parece faltar, entre nós, o pai e os filhos, é o elo ou tecido conectivo que nos torne suficientemente capazes de tolerância recíproca, cada um a admitir os valores do outro, respeitosamente, mesmo que, depois, para seu governo próprio, não cumpram as prováveis determinações, sequer a orientação que pode ser aceita como superada ou imprópria. Isto quer dizer, em termos mais comuns, a recomendação entra por um ouvido e sai pelo outro.

E, agora, vamos ao fecho das nossas considerações matinais - aquelas que lhes ofereço por tudo o que suportaram de mim, os meus erros de educação, as minhas ausências, o pouco que convivi com vocês, as poucas manhãs no pequeno bosque dos alemães, e a injustificada falta de disposição para o jogo de futebol ou o diálogo quotidiano, mas alegre e reconfortante. Quem sabe eu tenha sido, de verdade, um egoísta - quis demais para vocês e me afastei da convivência inteligente e simples e isto porque vocês tendo tudo o que me parecia o melhor viveriam mais tranqüilos e quem sabe fossem menos importunos, me aborrecessem menos. Dei-lhes o que pude para meu sossego - seria este o meu grande erro? Quem sabe eu devesse ser aborrecido pelos pedidos insistentes, repetidos, do que faltasse para o conforto, o transporte, até mesmo para a formação cultural - quem sabe os aborrecimentos das críticas fossem superados pelo ajustamento amoroso que resultaria das querelas, dos nossos combates quotidianos e a vitória fosse de todos, - porque teríamos menos e seríamos mais... Enfim, eis-nos, tardiamente, a nos repetir - de novo o pai chato, o que fala demais, o que monta a pantomima da realidade e dela não participa inteligentemente. Talvez eu consiga ainda a última vantagem disto tudo - quem sabe tenha economizado as lágrimas de meus filhos a fim de que possam com elas regar o meu túmulo.

sábado, 1 de outubro de 2011

Reflexões quase eficientes

Sento-me à mesa pela manhã. Diante de minha fome adolescente estão o café com leite e um pedaço de pão. Fala-me o estômago. Em voz alta afirmo que não gosto de pão puro. A voz de papai me adverte incisiva. Antes puro que impuro meu filho! Até hoje duvido algum pouco de minhas pretensões. Naquele momento apenas parece que me falta manteiga, mas descubro que o pão fora conquistado com decência para a frugal alimentação dos quinze filhos. Daí para diante, desde então, duvido do conteúdo das palavras. Paro sempre para pensar nestes termos gráficos que devem confirmar nossos sentimentos. Amizade pura, garantem-me alguns que perambulam pela minha paisagem humana, aí, quase próximos à própria alma. E me obrigam a perguntar, com outro tipo de fome, se existe amizade impura. Acredito em amizade colorida, isto sim, aquela que faz explodir arco-íris diante de nossos olhos, ao impulso de emoção telúrica. E alguns querem me convencer que existe amor platônico. Procuro no dicionário e ele me traduz a palavra que contém a idéia de amor que se não prende aos interesses materiais. Casto, ideal, diz Platão. Que me desculpe o filósofo, não creio em amor platônico. Talvez casto, mesmo porque o termo me soa bem, é roliço e brando. Há vinhos castos e embriagam.

Sinto informar-lhes que meu amor é táctil. Percebo o qualificativo quando chego diante da estátua iluminada de sensibilidade e não resisto à vontade orgânica de percorrer-lhe as curvas como os cegos, com as pontas dos dedos. Amo em Braille. Por isso não resisto à pretensão de forrar o pão puro com algum pouco de manteiga. Parece carinhoso tomá-lo nas mãos para o ato de cobri-lo com a geléia caseira. Gosto de abraçar os amigos e as amigas. Sentir-lhes a segurança das costelas que protegem os batimentos cardíacos. Olhar-lhes nos olhos, falar-lhes com o afetivo e efetivo aperto de mão. Lamento não conseguir tocar a paisagem, o céu, aquela fímbria de luzes a que chamam horizonte. Mas acaricio à minha maneira as flores, as árvores, os cães. Os pássaros são muito ariscos. Ainda nos obrigam a sermos platônicos. Por isso se mantemos os pássaros em gaiolas, ambos sofremos. Os que amam os pássaros e os próprios. Porque não se deixam tocar. Ou pegar mesmo, corajosamente.

 E as crianças? Atiram-se quase dentro de nós mesmos. Atropelam nossa alma. Enroscam-se em nossos sentimentos. Amarrotam roupas, eliminam vincos de calças bem passadas. Não entendem porque limpamos o rosto depois do beijo lambuzado de chocolate. Ou cheio de grãos de arroz, caldo de feijão, amor eficiente e farelo de pão. Aquele encantador Rabi, há muitos anos, agradece àquele que lhe lava amorosamente os pés depois da caminhada e os refresca com o bálsamo de alto preço. Agradece com mais calor do que aquela que lhe prepara afanosamente o alimento para o corpo. O carinho contém mais proteínas. Ele mesmo molha os dedos na própria saliva e passa-os nos olhos do cego. Fá-lo enxergar. Porque o cura carinhosamente. E pergunta no meio da multidão aflita quem o toca. Tantos o tocam naquele momento, mas é toque de mãos especialíssimo. Cheio de amor, confiança, a afirmativa pretensão de sentir o ser amado. Ouço falar que quem ama não precisa dizer nada a respeito de seus sentimentos. De pleno acordo, porque não se pode falar mesmo durante o beijo. Noticio-lhe que no formal de partilha resta-me este amor táctil como herança de Papai. Ele adora morder as bochechas rosadas dos filhos pequenos. E dos graúdos também. E ouvi-los gritar por entre risos assustados.

Recomendações

Bom dia, me diz ele, com ar sem pressa. Sei que você anda desindexado, nem mais aquele cafezinho amigo, necessário para esquentar a gente neste fundo frio de seu escritório. Dizem que a amizade aquece. Talvez seja por isso que os mendigos andam em duplas. Não estou aqui à toa , diante dessa cara de homem ocupado, nesta manhã de sexta-feira. Pela primeira vez me convenço da importância do tempo que vamos gastar, nós dois, em simplesmente dizermo-nos coisas aparentemente banais. Já há algum tempo me preocupa o tamanho de seu sorriso. Ele anda pela metade. O que se fez daquela cara luminosa, que você empresta pra gente nos dias durante os quais é urgente crer em si mesmo. Vim buscar a outra metade. Ou fazer com que você descubra onde esqueceu a chave-mestra do circuito de suas paixões. Você não pode perder o que há de mais gostoso neste nosso trajeto apressado e que é exatamente uma boa companhia. É a melhor companhia e a melhor companheira. Ou para ser mais claro - a mulher que você enxerga por inteiro, com olhos de canibal por vocação.

Fique viciado nela. O vício é aquele impulso incontrolável que nos obriga a viver à espera. Expectativa do “nosso” instante quando atendemos em plenitude a nossa paixão, decididamente orgânica. É preciso sentir fome, frio, tremores que arrepiem a própria alma. Tudo isto por causa de sua ausência. Ou falta. Não tenha medo de confessar-se dominado por ela. Ou ainda - deixe-se dominar. Entregue-se a essa paixão. Dizem que o verdadeiro alcoólatra é aquele que bebe escondido. Decididamente faça isso. Esconda-a sempre que puder. Sorva-a aos goles. Curtos e lentos. Sinta primeiro o buquê. O perfume da própria casta. Pare o relógio para não ouvir sequer o tic-tac das limitações. Faça-se fluído, entre-lhe pelos poros. Embriaguem-se, e que se tornem doentes incuráveis.

É engano seu. Ela é a mesma, você é que não tem lido, corretamente, a bula desse santo remédio. Bula é isso mesmo. Recomendação. E para entendidos. E eu sempre confiei em sua experiência de laboratório, na composição de poções mágicas, essas que o transformam em Peter Pan, ou naquela fumaçazinha que volta, de vez em quando, para a garrafa do gênio.

Pena que não tenhamos, agora, aqui mesmo, um espelho. Já aumenta um pouco esse sorriso antes mofino. Vamos pensar um pouco mais, e em voz alta. Os músculos exercitam-se. Assim beijos e abraços. Deixar para depois a curtição de uma nuca, o convite luminoso de olhos convencidos é como pagar o empréstimo compulsório. São recursos da felicidade que não voltam nunca mais. Se puder separe seu dia em três partes iguais. Algumas horas para o trabalho, outras para recompor a força necessária ao exercício do amor. Não pense que proponho poemas piegas, recitados à la Verona, sob a sacada, tranças desandando parede abaixo, frágil ascensão. Proponho o amor táctil, que você enxergue nessa mancha roxa o rubro da própria paixão. Que você tenha por aí, quase em todos os lugares, verdadeiro arco-íris.

Por isso estou aqui. É urgente aceitar o sorriso como sinal de sabedoria. São sábios os loucos e os amantes. Riem sempre. Mesmo que não saibam bem porquê. O riso nos obriga a abrir a boca e aumenta a capacidade de oxigenação do cérebro e da vida. A paixão escancara o coração. Evita enfarte, abre artérias à passagem do sangue apressado pela arritmia do amor. Se ela o ama “mesmo” é besteira sua não tomar três refeições ao dia. Esse negócio de regime, nem o militar. A hora é invenção nossa e só serve para não perder o transporte coletivo. É inteligente quem faz a hora, uma hora enorme, da qual ele se lembra só do minuto derradeiro. E com tristeza.

Já me vou. O amor e a alegria são irmãos siameses. Xifópagos.

Ratificação

Tenho vontade agora de pensar solto. Sem os rumos que a gente estabelece para qualquer conversa mais formal. Às vezes sinto necessidade de sentar-me diante de vocês e dizer-lhes coisas bem minhas aqui de dentro, não sei bem se isto é revelação ou simplesmente redescoberta. Porque muitos de vocês me conhecem melhor que eu mesmo. Já lhes disse em certa ocasião que todos nós somos dois. Temos o eu dividido. Mas, descubro que depois de certa idade, quando somos ou não vitoriosos em nossas pequenas escaramuças interiores, sem querer nos unimos, passamos a ser um só. Agora, quando chego a mais uma etapa, e que importa que seja marcada pelo calendário, convenço-me de que mais do que nunca nos unimos os dois de mim mesmo. Não são datas que nos modificam, sim o tempo, esta repetição momento a momento do que somos, de nossos sentimentos, atos e omissões. Agora somos capazes de ratificar tudo o que fizemos, repetir tudo de novo corajosamente. E o que é melhor, sem as preocupações em relação ao mundo e aos homens.

Descobre-se mais alguma coisa como, por exemplo, que o nosso momento é sempre presente. Nós inventamos o futuro. E temos um trabalhão para arrumar o nosso quotidiano para a composição de alguns sonhos. Passo a desfrutar , agora minuto a minuto, coisas e gente mesmo em intenção. O que nesta altura da vida acho mais gotoso e que me entusiasma à alegria? Vocês já perceberam que adoro conviver, também com as dores do mundo porque tenho certeza que me cabe o direito de secar algumas lágrimas. Tantos me ajudaram a enxergar melhor a luz das estrelas, porque me convenceram a manter abertos os olhos da madrugada. Passo a ser um pouco mais exagerado e quero que essa convivência seja efetiva, e isto quer dizer que gosto de explorar a criatura que amo no bom sentido. E esta exploração chega às raias do exagero. O que pouco me importa.

Sente-se, bem solto, na manhã colorida, diante dos netos que brincam. Fique à espera do primeiro tombo. Apenas carregue o pequenino corpo, mas aos beijos. Abafe-lhe o choro com a história do Pedro Malazarte. E garanto-lhe que a lágrima salgada é culpa da máquina de fazer sal do Pedro, aquela que ele não sabe fazer parar. Dê risadas largas, esparramadas, escandalosas.

Mas o bom mesmo é despertar sem compromissos, deixar que os olhos procurem o próprio rumo na penumbra do quarto ainda fechado. E que sejam rítmicos os corações e os primeiros beijos. E que existam descobertas matinais, sem pressa, as pequeninas surpresas de quem ainda não percorrera todos os atalhos do amor. E depois deixar-se quase fluído, ali mesmo, como se tudo não quisesse mais existir. Sentir-se enorme, maior do que o próprio cansaço, fora de todos os limites. Estranho à própria realidade. E compô-la de novo, à realidade, lentamente, minuto a minuto até que chegue a coragem de levantar-se para o mundo e seus encantos agora mais eficientes.

E que a água matinal escorra morna e perfumada, descuidados ambos do barulho do próprio riso e o batismo necessário nesta liturgia que nos faz comungar a própria alma. E que nos revela, no caminho colorido deste pequenino céu, quantas estrelas existem e que se multiplicam mesmo quando temos gostosamente fechados os próprios olhos.

A primeira refeição já foi tomada. Que outro apetite nos resta senão aquele de provar agora e sempre, o dia que nos reserva o esplêndido exercício de viver. Porque é urgente promover descobertas repetidas, a todos os instantes, como se fossem as primeiras. E ficar surpreso do próprio descuido, que lhe não permitira enxergar como é bela a luz que se filtra por entre o cabelo negro e solto.

Ratificar, assim, oficialmente, a própria condição humana. Deixar-se existir. Sem reservas.

Quarenta anos depois

Escrevo estes apontamentos dia 7 de novembro para que se publique em um dos dias que se segue a mais esta sexta-feira, que se apresenta nos conformes e isto quer dizer que se veste de azul ventilado, o vento ágil a arrepiar as nuvens. Há quarenta anos morria Hildebrando Siqueira, meu pai, a respeito de quem tenho conversado com vocês com alguma insistência. E com certeza já perceberam que vale a pena sempre dizer alguma coisa de um poeta. Hoje eu gostaria de conversar com ele, que ostentaria, agora, oitenta e dois anos e que não chegou a conhecer a última filha, a Maria Póstuma, como nós apelidamos a Lurdinha. E não curtiu sequer os três últimos dos quinze filhos. Tenho a impressão que lhe não deram tempo, primeiro porque morreu dessa maneira jovem e apressado e depois porque dava dez a doze aulas por dia para alimentar a tribo, - designação correta daquela falange de glutões.

Pois é Hildebrando, meu pai, você teria oitenta e dois anos e dos quinze filhos, dos que lhe sobram, agora, você encontra trinta e seis netos e dezoito bisnetos e pode crer que a turma melhorou a raça. Há muitos de olhos azuis, como os de vovô Isolino e alguns com cara de índio, quem sabe lembrança das raízes inconfessáveis daquela famosa árvore genealógica que se tentou compor heraldicamente. Mas, é uma turminha boa, alegre, com algumas e naturais confusões, dessas que você demora para entender e cujas soluções, finalmente, mamãe consegue encontrar e as finaliza com aquele sorriso, do qual você há de se lembrar, entre irônico e piedoso. Você precisa ver quando a gente consegue reunir todo mundo, na casa do João Carlos ou na minha, - vale a pena - o movimento fica entre o de uma creche e de um campo de futebol em dia de grande jogo. Poucos conseguem entender-se, mas correm, comem, - principalmente comem - jogam e a final pelos cantos há crianças de todo tipo dormindo, empoleiradas em cadeiras, camas improvisadas, pelos corredores.

Mamãe vai bem e depois daqueles três livros de poesia que escreveu e que editamos para a família, escreve as suas memórias, cujos originais compostos por ela mesma, à máquina, são revistos e repassados pelo Maneco. Anda com um pouco de dor na perna mas, continua indo à igreja e roda o dia inteiro, a trabalhar.

Cá para nós, mesmo depois de quarenta anos passados você faz falta. Já se imaginou conosco, todos os netos e bisnetos e você, com aquela alegria, com a qual nos ensinou, muitas vezes a entender a própria vida, a curtir, agora, a sua cadeira de balanço, aquela austríaca, com o último livro de Quintana? E por falar nisso, conservo a sua biblioteca, algo aumentada pelos que adquiri, livros bons, - todos lidos, veja bem, anotados a lápis, nas margens e até algumas vezes, com caneta esferográfica, dessas que têm tinta vermelha e que parecem macular a página. Bem sei que você não aprova que se machuque o livro, mesmo porque você sempre se considerou bibliomaníaco. Quase me esqueço de dizer-lhe que muitos dos seus netos têm a sua cara, essa boca de babados, que se esparrama preguiçosamente queixo abaixo.

Mas, sabe o que está bom mesmo e que você aprovaria, tenho certeza, na excelente companhia aqui de seus filhos mais velhos? A noite campineira. A cidade se encheu de barzinhos ótimos, com música e cantores dos bons e aquele papo comprido a gente poderia desfiar pelos aí da madrugada, cordialmente, sem susto, cumprindo aquele nosso roteiro, em busca dos caminhos da lua nas águas de algum chafariz. Lembra-se de nossos carnavais? Há ótimo sambão em alguns lugares de nossa terra, com a cor local, decerto fortemente protegida alguma mulata de olhos verdes. Lógico que nos iríamos às redações dos jornais cheirar a tinta preta e embriagadora, confirmar o vício que você me legou, por inteiro, incuravelmente.

Hildebrando, velho amigo, - hoje um amigo velho - é primavera e você continua a ver as cores do mundo pelos multiplicados olhos de sua gente, olhos verdes, azuis, pretos, ariscos, alegres, agora um pouco comovidos.

Beijos e abraços

Não há melhor remédio. Experimente qualquer receita, por mais nova ou extravagante e tenho certeza de que voltará à tradicional, a mais necessária, aquela que dá resultado mesmo. Beijos e abraços, eis a fórmula. A mais simples e antiga para curar beiço caído, cara de choro, dor de barriga. E eis qualquer criança aberta naquele sorriso, enorme, dentro do qual cabe, por inteiro, a nossa própria alma. Não tenha medo que não gasta. Pegue-a, à filha, ao neto, corrompa-o com beijos, faça-o cúmplice de todos os outros crimes, o doce que se deixa, à mão, na prateleira, ou aquela visita à sorveteria contra as ordens dos que depois dormem com aquele pequenino nariz que espirra. Gosto demais até e sei que sou exagerado, do que, aliás, não me importo muito - gosto de abraçar e beijar essas coisinhas fofas, molinhas, que choram com os cotucões de meu bigode espetado. E tenho até algumas receitas muito minhas, particulares, para aquela chuva de beijos e o montão de abraços que tenho vontade de distribuir a filhos e netos e que decididamente entrego, os beijos e abraços, muito mais do que doces e brinquedos. 

São fórmulas simples, como devem ser todas as coisas relativas a crianças, filhos ou netos. Se o Bruno tira, à muque, o carrinho da Bertha há o famoso beijo de advertência. Você pega o neto mais velho, coloca-o no colo, e dá-lhe o beijo mordiscador. Isto quer dizer que você beija perto da orelha ainda cor-de-rosa, de forma tal que pequena mordida arrepie a ponta da dita cuja. O susto do moleque e a alegria da vítima são fundamentais ao resultado final. O carrinho volta à Bertha, que por seu turno deixa em paz o Fausto que deixa em paz o Eduardo que deixa em paz o Gabriel. Aliás, o Gabriel vive em paz. Dá idéia de tatu-bolinha. Ou rechonchuda pequena taturana, os olhos muito abertos aos ruídos do mundo.        

Há outra fórmula ainda mais adequada ao tratamento disciplinar de netos e filhos. É o famoso abraço coletor. O filho chega de madrugada numa boa, pouco se lhe dá o susto dos velhos. No dia seguinte abrace-o bem apertado, traga seu coração perto do coração velho e assustado. É magnífica coleta de sons. Os dois corações não sabem bem se estão no mesmo ritmo. E logo descobrem que sim.          

Basta. Na madrugada seguinte o filho notívago já chega de braços abertos, convencido de que filho e madrugada foram feitos um para o outro, e que pais e avós foram feitos para esperar assustados. E que se abracem como esplêndido remédio, certos de que o bom mesmo é esta volta repetida e quotidiana a este mundo que deverá ser de beijos e abraços. Não quero me esquecer do beijo de remissão. Este é muito importante e deve ser utilizado sempre que você enche demais uma criança. Isto significa que quando você não consegue ser gente com os miúdos, à noite, sente-se à beira da cama pequenina e fique beijando, no escuro mesmo, aquele negocinho gostoso que ali está, filho ou neto. É extraordinário alívio a pais e avós que têm algum problema hepático, os que sofrem do fígado. Ficam ambos curados, fígado e coração. Experimente.  

Dê uma colher de comida e um beijo. A criança engorda muito mais. Não há nada mais protéico do que o beijo. Engorda e faz crescer. O duro é que o pai, o avô, ali de lado, há de querer o mesmo tratamento. O triste é que avô não cresce mais. E não vale a pena engordar demais velho. Implode. E se a lição deve ser feita em casa porque não a quatro mãos ou dez beijos? Podem crer que fica tudo muito mais bonito e bem feito. As cores mais vivas e a letra um pouco trêmula por causa dos ditos numerosos beijos.               

Tudo isso não é receita só para o dia oficial da criança. É para todos os dias. Todos os meses. A vida inteira. Filho é sempre filho. Criança é sempre criança. Olhem um pouco para dentro de vocês mesmos.         E querem saber de uma coisa? Beijos e abraços são receita para todo mundo. Para gente grande e gente pequena. Filhos e mães. Netos e avós. Próprios e alheios.